
A campanha Novembro Azul de 2026 chega em um momento de mudança na urologia. Exames de imagem mais precisos, sistemas de inteligência artificial em validação e a cirurgia assistida por robô alteraram a forma como o câncer de próstata é investigado e tratado. Este texto reúne o que os estudos mostram sobre cada uma dessas tecnologias, o que mudou na cobertura pelos planos de saúde e pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e porque nenhuma delas substitui a avaliação individual feita pelo urologista.
O Brasil deve registrar 77.920 novos casos de câncer de próstata por ano entre 2026 e 2028, segundo a estimativa nacional do Instituto Nacional de Câncer (INCA). De acordo com o Ministério da Saúde, a doença pode não apresentar sintomas na fase inicial, e o tratamento nessa etapa aumenta a chance de sucesso.
O urologista Dr. Fernando Marsicano (CRM-MG 27082 | RQE 11434), que atua em Belo Horizonte há mais de três décadas no tratamento do câncer de próstata e em cirurgia robótica, afirma que "a tecnologia ampliou as opções de diagnóstico e tratamento, mas não mudou o ponto de partida: a conversa entre médico e paciente".
Ressonância magnética antes da biópsia
Uma das mudanças mais consolidadas ocorre antes da biópsia. O estudo PRECISION, publicado em 2018 no New England Journal of Medicine, comparou a biópsia convencional guiada por ultrassom com uma estratégia que começa pela ressonância magnética multiparamétrica. No grupo da ressonância, 28% dos homens não precisaram de biópsia, porque o exame não apontou suspeita. A estratégia também identificou mais tumores clinicamente significativos (38% contra 26%) e menos tumores de baixo risco (9% contra 22%), que em geral não exigem tratamento imediato. O ensaio clínico reuniu 500 homens com suspeita da doença em centros de 11 países.
Quando a imagem mostra uma área suspeita, a biópsia pode ser direcionada a esse ponto com técnicas que fundem as imagens da ressonância e do ultrassom, o que reduz o número de fragmentos retirados.
Inteligência artificial como apoio ao especialista
A inteligência artificial atua nessa mesma etapa. O estudo internacional PI-CAI, publicado em 2024 na revista The Lancet Oncology, analisou mais de 10 mil exames de ressonância de próstata. O sistema avaliado teve, em média, desempenho superior ao de 62 radiologistas que usavam o protocolo padrão de leitura e resultado comparável ao da rotina clínica multidisciplinar. Os autores descrevem a ferramenta como apoio ao diagnóstico.
"A inteligência artificial funciona como uma segunda leitura do exame e ajuda a reduzir diferenças entre avaliações. A indicação de biópsia e a escolha do tratamento continuam sendo decisões médicas, que consideram o PSA, o exame físico, a idade e a história de cada paciente", explica Dr. Fernando Marsicano.
Como funciona a cirurgia robótica
Quando o tratamento indicado é a retirada da próstata, chamada prostatectomia radical, a cirurgia pode ser feita pela via aberta, por videolaparoscopia ou com assistência robótica. Na técnica robótica, o cirurgião opera sentado em um console, com imagem tridimensional ampliada, e comanda braços articulados que reproduzem seus movimentos e filtram tremores.
"O robô não opera sozinho. Ele amplia a precisão do cirurgião em uma região estreita da pelve, onde ficam os nervos ligados à ereção e o esfíncter que controla a urina. O resultado depende também da experiência da equipe, do estágio do tumor e das condições do paciente antes da cirurgia", afirma o urologista.
A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) avaliou as evidências científicas sobre a técnica e publicou um relatório em linguagem acessível ao público. Segundo o documento, a cirurgia robótica foi associada a menor necessidade de transfusão de sangue e a menos complicações graves do que a cirurgia aberta, além de melhor preservação das funções urinária e sexual quando comparada à videolaparoscopia. A própria comissão classificou a qualidade dessas evidências entre moderada e baixa.
O custo de aquisição e manutenção do equipamento é elevado, e as avaliações internacionais citadas pela Conitec indicam que a cirurgia robótica tende a ser mais eficiente em centros com grande volume de procedimentos, a partir de cerca de 150 cirurgias por ano. Por isso, a comissão defendeu que o uso da técnica no SUS seja concentrado em hospitais de alta complexidade, com equipes treinadas.
Cobertura pelos planos de saúde e pelo SUS
A Conitec recomendou a incorporação da prostatectomia radical assistida por robô ao SUS em agosto de 2025, para casos de câncer localizado ou localmente avançado. Na sequência, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) incluiu o procedimento no rol de cobertura obrigatória dos planos de saúde, com vigência desde 1º de abril de 2026. Trata-se da primeira cirurgia robótica com essa obrigatoriedade no país. Segundo a Conitec, a rede pública contava com 40 robôs em funcionamento no momento da avaliação, com concentração nas regiões Sul e Sudeste.
"A cobertura obrigatória amplia o acesso, mas a indicação da cirurgia robótica é individual. Há pacientes para os quais a vigilância ativa, a radioterapia ou outra técnica cirúrgica são mais adequadas", pondera Dr. Fernando Marsicano.
Tecnologia não substitui a consulta
As diretrizes do Ministério da Saúde orientam que a decisão sobre exames de detecção precoce, como o PSA, seja individual e compartilhada entre médico e paciente, com informação sobre benefícios e riscos. Homens com histórico familiar da doença ou outros fatores de risco devem discutir com o urologista o momento de iniciar essa avaliação.
Para o Dr. Fernando Marsicano, "os avanços tecnológicos têm mais impacto quando o câncer é identificado cedo, fase em que as opções de tratamento são mais amplas e as chances de preservar a qualidade de vida são maiores". Ele recomenda que "homens com diagnóstico confirmado conheçam todas as alternativas disponíveis antes da escolha da técnica".
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