Quinta, 06 de Agosto de 2026

Busca por profundidade e dinamismo marca 40 anos do Revista Brasil

Programa da Rádio Nacional inovou com duas horas de jornalismo diário

06/08/2026 às 07h27
Por: Redação Fonte: Agência Brasil
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© Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
© Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

Naquele 6 de agosto, o repórter sergipano Aécio Amado, de 35 anos, acordou pouco depois das 4h da madrugada e chegou às 5h, antes do raiar do dia, à redação da Rádio Nacional do Rio de Janeiro , pronto para o que viesse. Ele iria estrear em um novo programa jornalístico, o Revista Nacional , e, dessa vez, falaria para o país inteiro.

Era normal, em sua rotina, carregar a tiracolo uma montanha de fichas telefônicas, um pesado carregador de fita, bloco de anotações e canetas. Pesquisou o que acontecia no trânsito e nas delegacias. E não faltariam notícias, mesmo sendo em um Rio de Janeiro diferente, naquele “inverno” quente de 1986.

Na estreia do novo programa, deixou qualquer nervosismo de lado e ouviu o chamado do apresentador goiano Valter Lima, também de 35 anos, direto de Brasília. Acompanhou o que se passava pelo país na voz dos colegas. O Revista Nacional ganharia o nome depois, em 1998, de Revista Brasil , com a mesma lógica de trazer informações instantâneas, aprofundadas e entrevistas com duas horas de duração.

Vida de reportagem

Quarenta anos depois e aposentado recentemente, Aécio garante que o dia a dia na rádio é sempre recheado de emoções fortes, como a que ocorreu em 1988, na véspera do Ano Novo. Ele foi acionado para cobrir o naufrágio do navio Bateau Mouche IV, que provocou a morte de 55 pessoas na Baía de Guanabara.

“Foi marcante e também muito triste. Quando cheguei, o portão do Salvamar, da Marinha, estava aberto. E vi os corpos chegando trazidos nas lanchas”. O programa começou às 8h da manhã, mas o repórter já havia passado a noite em claro com as notícias tristes que chegavam. “Faz parte da vida do repórter”, afirma.

Duas horas sem parar

Quem conhece bem essa realidade é Valter Lima, que esteve à frente do programa nas últimas quatro décadas de forma ininterrupta. Ele, que foi contratado para ajudar na formulação de um “projeto inovador” para um programa que priorizasse informação e dinamismo por duas horas a cada dia, também ficou conhecido entre os colegas por madrugar no estúdio em nome de dar notícia em primeira mão a partir da capital.

“Nasceu a proposta de utilizar a rádio como veículo de aprofundamento das questões políticas, econômicas, sociais, internacionais e humanísticas”, afirmou Lima. Por isso, o programa não era transmitido apenas de Brasília, mas também do Rio de Janeiro e até do Amazonas. “Mais de 200 emissoras ao vivo transmitiam desde o começo”.

Segundo Valter Lima, um dos primeiros grandes desafios do programa foi traduzir ao público as discussões dos parlamentares para a formulação da Constituição de 1988. Ele recorda que tinha acesso a diferentes fontes de informação nessa época, em função de que, nas coberturas, chegou a participar, antes de 1985, do Movimento das Diretas Já.

Da Amazônia, outro desafio foi a cobertura da primeira epidemia do cólera no país, em 1991. A equipe se deslocou para diferentes pontos da Amazônia para registrar o problema. No ano seguinte, ele considerou também histórica a cobertura da “Eco 92”, Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento realizada no Rio de Janeiro de 3 a 14 de junho daquele ano.

“A equipe do Revista Brasil sabe da responsabilidade que é veicular conteúdos a partir de uma emissora pública porque esse material é replicado dentro e fora do Brasil graças à credibilidade que todos nós construímos. Não podemos falhar”. Desde os primeiros programas, o Revista chegava a mais de 30 milhões de pessoas.

A chacina da Candelária, em julho de 1993, quando oito crianças e adolescentes foram mortos em frente àquela igreja no centro do Rio, também sensibilizou o experiente jornalista. “Essa história tocou no coração da gente”. Ele lembra os detalhes de quando recebeu as primeiras notícias dos jovens.

Vozeirão

A juventude, em particular, é um tema que sempre tocava o apresentador. Ele Lembrou de quando saiu de Anápolis (GO) para tentar a vida em Brasília. Alistou-se como soldado da Aeronáutica e fazia bicos de locutor na rodoviária, no centro da capital. Em um desses anúncios, diretores de rádio queriam saber mais daquele vozeirão.

“Queria ganhar um dinheirinho para estudar”. De repente, já trabalhava na Rádio Alvorada. Depois, para a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), foi um pulo. Finalmente, teve a carteira assinada. Mais do que o sucesso profissional, orgulha-se de ter sido ouvido na rádio de pilha pelo pai, Adão, pedreiro, e pela mãe, Dalva, ambos já falecidos.

“Fico orgulhoso de ser parte da história da comunicação pública”.

Nos bastidores

Nem todos que se dedicam à rádio foram aos microfones. Entre essas pessoas, a produtora Fátima Araújo chegou à empresa em 1977. Ela começou como auxiliar administrativa da Rádio Nacional da Amazônia . De repente, passou a entrar nos estúdios. Inicialmente, recebia as cartas dos ouvintes para selecionar e serem lidas no programa.

Chegava de tudo, inclusive perfumadas com talco ou objetos de recordação - informações, pedidos e sugestões de mais pautas. “O Valter chegava muito cedo. Antes de todos. Acendia e apagava as luzes da rádio à noite”.

A internet mudou a forma de interação desde o final dos anos 90. As cartas perfumadas deram lugar a e-mails que lotaram a caixa de entrada e “a mensagens o tempo inteiro”. “Mas a correria nunca mudou”, diz a produtora.

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