Terça, 19 de Maio de 2026

É preciso desaprender para conviver com a IA, explica Silvio Meira

Engenheiro é um dos fundadores de polo tecnológico no Recife

19/05/2026 às 17h00
Por: Redação Fonte: Agência Brasil
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No começo dos anos de 1990, um grupo de artistas incomodados com o marasmo cultural em Pernambuco escreveu o manifesto Caranguejos com Cérebro . Nascia oficialmente o manguebeat , movimento que misturou maracatu, reggae, hip hop e tecnologia.

Nesse caldeirão, um grupo de professores do Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco (CIn-UFPE) resolveu criar um centro de inovação tecnológica para tentar reter os cérebros de estudantes e profissionais de várias áreas de conhecimento.

Então surgiu, em 1996, o Centro de Estudos Avançados do Recife (CESAR). A organização foi uma espécie de semente do que viria a ser o Porto Digital, hoje um dos principais polos de inovação tecnológica do país, que concentra quase 500 empresas de tecnologia na região do Recife Antigo.

O engenheiro e escritor Silvio Meira estava entre os fundadores do CESAR e, agora, 30 anos depois, ele volta ao Conselho de Administração da instituição.

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Nas comemorações de aniversário do CESAR, ele explicou a decisão. “Com a inteligência artificial, uma invenção que só encontra precedentes na criação dos tipos móveis, por Gutenberg, em 1450, o CESAR tem que voltar às origens”.

Foi nessa busca das raízes no mangue que Silvio Meira falou à Agência Brasil sobre os avanços da inteligência artificial e o papel das pessoas na condução dessa transição.

Agência Brasil: Você tem repetido que a inteligência artificial é o novo grande desafio da humanidade. Por quê?
Silvio Meira: A inteligência artificial mexe com a capacidade cognitiva e repetitiva dos seres humanos. A gente tem três inteligências: uma é inteligência informacional, a nossa capacidade de captar, processar, armazenar, recuperar, usar a informação para tomar a decisão em ação. A gente tem a capacidade de socialização, como a gente se articula com outras entidades para resolver problemas. E a gente tem a capacidade autônoma, o meu poder de decisão. Eu podia não ter decidido não vir para cá agora, mas decidi vir.

O que IA faz? A IA “imita a inteligência” informacional dos humanos. Tudo que eu e vocês fazemos que é cognitivo, exige uma formação, mas é repetitivo, a IA pode fazer e faz melhor do que o humano numa escala estratosfericamente mais elevada e mais barata. Esse é o tamanho do problema.

Agência Brasil : Dá um exemplo?
Meira: Vamos pegar um clínico geral padrão: você chega, ele nem olha pra você e pede 76 exames. Aí você faz os exames, volta, de novo, ele nem olha pra você e passa 22 remédios. Esse cara é uma IA dele mesmo. Se o que ele faz é pedir exames, analisar exames e casar exames com bula de remédios e passar remédios, ele pode ser automatizado.

As inteligências artificiais já dão conta, por exemplo, de escrita de código, que é algo extremamente complexo para a vasta maioria dos mortais não treinados. Elas dão conta da escrita de 95% do código que os humanos escrevem e escrevem tão bem ou melhor do que eles. Ponto final.

Agência Brasil: O que sobra para quem é humano?
Meira: Qual é o meu papel? É definir se o código deve ser escrito ou não. Definir que código escrever, como escrever, para quem escrever o código. Validar se o código foi escrito como deveria, se tem ou não tem problemas de funcionalidade (ele faz o que deveria fazer?). Ver se o código tem problemas de segurança.

O meu trabalho ficou muito mais complexo. Antes, o que eu fazia? Eu me sentava e escrevia. Agora, eu entrego para uma máquina, ela me entrega o código pronto e eu tenho que validar tudo isso.

Agência Brasil: Se é tão eficiente, porque é preciso validar?
Meira: Eu simplesmente não posso confiar porque ela é uma máquina probabilística e ela tem a probabilidade de dar errado. Digamos que a IA tem 50 possibilidades diferentes de escrever um mesmo código, mas três delas estão erradas e, por alguma razão, ela escolhe um desses caminhos errados. O código parece que funciona, tá todo lindinho, todo coerente, mas ele está errado.

Agência Brasil: A gente tem feito essa discussão com a atenção que precisa?
Meira: Essa é a discussão de todos os dias aqui no CESAR, no Centro Informático da UFPE, nas empresas do Porto Digital. Só para você ter uma ideia, o primeiro evento do Porto Digital sobre o impacto da IA nos negócios de tecnologia foi em 2018. Não foi em 2023.

Agência Brasil: Como a IA está sendo usada na prática no Porto Digital?
Meira: Nas empresas que são spin-off [empresas independentes criadas a partir de uma empresa-mãe ou de um centro de pesquisa] do CESAR, é simplesmente proibido você trabalhar sozinho. Você tem que ter um agente inteligente que você construiu , que trabalhe com você. Eu tô falando do RH, do atendimento, do marketing, de tudo. Veja, não é que é incentivado. É proibido.

Agência Brasil: É proibido trabalhar sem IA?
Meira: Sim! Porque tudo que você fizer, que você repetir, você tem que criar um agente para fazer. Para você parar de repetir coisas, porque é mais barato fazer com a IA. Não é só mais barato, é mais rápido.

Quando o cliente quer uma resposta da gente, você pode estar pegando seu filho na escola, no banheiro, você pode estar onde você estiver. Mas se você pega o que você faz, que é repetitivo, e codifica e coloca um agente inteligente para fazer, o cliente fala com esse agente e tem seu problema resolvido.

Agência Brasil: Quando a IA solucionar todos os problemas, as pessoas vão ficar sem trabalho?
Meira: A gente tem que desaprender as coisas. Não dá para seguir fazendo as mesmas coisas, independentemente das mudanças. Vamos imaginar que a gente estivesse em 1898. Estava surgindo a indústria automotiva, mas o mercado ainda era de cavalos, carroças e carruagens.

Em 1903, nos EUA, foram vendidos 11 mil automóveis e 2,5 milhões de carroças. Dez anos depois, 1913, foram vendidos 3,6 milhões de carros e quase nenhuma carroça. Quem tinha carroça estava mantendo a sua, mas quem não tinha queria comprar um carro, não uma carroça.

O que acontece com a inteligência artificial? Uma empresa do Porto Digital, em um trabalho de tecnologia e design que demandava um time de dez pessoas e seis meses para ser feito, agora dá para fazer em um mês com um time de quatro pessoas. Você divide o tempo por 6 e a equipe por 2,5. Um aumento de produtividade de 15 vezes. Não é 15%. É 15 vezes. O que vai acontecer com as empresas que não conseguirem fazer isso? Não vão conseguir competir. É tão simples quanto isso.

Agência Brasil: E não é justamente isso que vai acabar com as vagas de trabalho?
Meira: Inteligência artificial não é exatamente inteligente, é imitação. São algoritmos imitando a nossa capacidade cognitiva repetitiva. Tudo que é cognitivo e repetitivo será ou já foi ou está sendo impactado agora pela inteligência artificial.

Em algumas áreas, isso é 95% do trabalho humano. Em outras áreas, muito menos afetadas, 10%. Em três anos, vai ser 100%. Mas não necessariamente substituindo humanos.

Talvez aumentando a capacidade de humanos de resolver problemas mais complexos mais rapidamente. Talvez articulando mais humanos dentro do mesmo ambiente para resolver problemas que um humano não consegue resolver sozinho.

Agência Brasil: No livro A Próxima Democracia, você defende transparência radical e política em plataformas [digitais]. Não é uma ideia meio contraditória? Porque se a plataforma controla, via algoritmo, o que eu vejo, o que eu gosto, o que eu compro e como eu voto, como falar em transparência radical?
Meira: A China criou uma camada de regulação nas plataformas dizendo que você pode discutir qualquer coisa desde que você queira resolver. Isso é uma coisa que a gente não sabe no Brasil, mas na China o dissenso é permitido desde que ele seja feito para criar consensos, desde que ele seja feito para resolver problemas. O que não é permitido é agressividade bruta, nua e crua só para destruir, só para atacar.

É o princípio de funcionamento da sociedade chinesa. Lá, as plataformas têm uma camada de software que é de Estado. Se você quer rodar uma plataforma na China, tem uma camada de estrutura, de serviços e de regulação.

A China tem uma regulação de videogames que até 12 anos de idade não pode jogar online. Fim. De 12 a 15 anos você pode jogar “X” horas por dia, de 15 a 18 anos você pode jogar tantas horas. E se as notas na escola começarem a cair muito, você é proibido de jogar.

Agência Brasil: Isso não é censura?
Meira: Não. Isso é consenso. Por que eu devia ter o direito de atacar você? A noção de censura e de liberdade ocidental levada ao extremo é burra. Nas democracias, os radicais, os candidatos a ditadores e autocratas querem ter o direito de destruir a democracia. Como assim!? Você não tem esse direito.

É bom a gente entender a semântica das palavras e das expressões. Eu não tenho o direito de destruir do nada, de graça, a reputação e a vida das pessoas online? Eu não tenho esse direito. E tentar fazer isso, mesmo que eu não consiga, deve ser tratado pelo sistema regulatório da sociedade, que é o sistema judicial.

Agência Brasil: Estabelecer limites. É isso a regulação?
Meira: O que eu fiz com meus filhos quando eles queriam jogar? Qual é a moedinha que tem que colocar no videogame? Cada 20 páginas lidas de um livro longo dava uma hora de videogame. E tinha arguição: “Qual o papel de Capitu nesse capítulo que você leu?”

“Ah porque Capitu não sei o quê…” Não sabe? Tá inventando? Pênalti. Não pode jogar hoje e para não tentar enganar de novo, não pode jogar amanhã mesmo que leia. “Ah, eu não gosto de ler Dom Casmurro”. “E eu também não gosto de trabalhar”.

Agência Brasil: A gente tem eleições neste ano, sem essa regulação e com inteligência artificial a mil por hora. O que a gente tem pela frente?
Meira: A gente tem incompetência. Nos últimos dois mandatos e nesse, inclusive. Porque deveria ter havido um esforço para regular plataformas e não houve. Por incompetência de gente que estava nos lugares para fazer e não fez.

Agora vamos enfrentar as consequências. Ter um espaço que é um faroeste. Menos faroeste que nos EUA, porque a lei de proteção de dados estabelece proteções muito maiores do que a vasta maioria dos países.

Mas a gente tem que fazer o mea culpa e o dever de casa. Deveríamos ter regulado e não criamos espaço político para discutir a regulação. Isso não cai do céu, tem que ser discutido com a sociedade, com a participação das plataformas, inclusive.

Agência Brasil: Os lobbies dificultam essa regulação?
Meira: O lobby , de vários lados, impediu que a gente fizesse essa regulação, mas só em parte. Nos mandatos anteriores, inclusive este, houve leniência do Executivo. Toda vez que houve alguma lei de regulação no mundo a articulação foi do executivo.

Porque as forças de mercado, pela própria natureza, não querem nenhuma regulação. Então, o Congresso, de sua iniciativa, e por causa dos lobbies no Congresso, não vai criar uma iniciativa de regulação, a menos que ele tenha algum tipo de interesse.

* A repórter viajou a convite do CESAR Beat

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