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El Niño forte aumenta risco para o agronegócio
Fenômeno climático que modifica o regime de chuvas deve atuar até o início de 2027 com consequências imprevisíveis para a agricultura, diz o empresário José Roberto Colnaghi
21/09/2026 16h06
Por: Redação Fonte: Agência Dino

O El Niño que está se consolidando na região equatorial do Oceano Pacífico pode se transformar em um dos principais fatores de risco climático para a agricultura brasileira na safra 2026/27. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) prevê a intensificação do fenômeno nos próximos meses, com probabilidade próxima de 100% de que seus efeitos sejam sentidos até fevereiro de 2027. No Brasil, as consequências mais importantes não serão necessariamente uma queda generalizada da produção, mas uma combinação de excesso de chuva em algumas áreas, calor e irregularidade hídrica em outras, trazendo imprevisibilidade para as lavouras.

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), em conjunto com outras instituições federais, estima em 90% as chances de o El Niño ser especialmente forte entre setembro e novembro, modificando a circulação atmosférica, bem como a distribuição das precipitações e das temperaturas no país. "Esta previsão é particularmente relevante para o agronegócio porque a mudança no regime de chuvas impacta diretamente a produção agrícola nacional", diz José Roberto Colnaghi, presidente do Conselho de Administração da holding Colpar Brasil, que opera negócios em setores como agropecuária, indústria e urbanismo.

O Brasil é um grande player mundial na produção de alimentos e este super El Niño pode tanto aumentar quanto reduzir as exportações brasileiras. "Isso depende de qual produto e de como o clima afetar a produção", destaca José Roberto Colnaghi. Hoje, o agronegócio é fundamental para o comércio exterior brasileiro – o setor registrou exportações de US$ 87 bilhões no primeiro semestre deste ano.

No Sul, o El Niño tradicionalmente aumenta a ocorrência de chuvas. Já no Norte e no Nordeste, tende a reduzi-las. No Centro-Oeste e no Sudeste, os efeitos são mais variáveis, mas a elevação das temperaturas e a irregularidade das precipitações podem aumentar o estresse hídrico das lavouras.

O Sul está entre as regiões que exigem maior atenção. O excesso de umidade pode atrasar operações de plantio e colheita, além de aumentar a incidência de doenças. Ao mesmo tempo, a maior nebulosidade e as temperaturas mais elevadas podem reduzir o risco de geadas tardias, criando efeitos positivos para algumas culturas.

O trigo é um dos exemplos mais evidentes, pois depende de condições relativamente específicas durante seu ciclo e pode sofrer com excesso de chuva na colheita. Outras culturas de inverno podem ser beneficiadas pela maior disponibilidade de água, mas enfrentam o risco de doenças e problemas de qualidade caso a umidade seja excessiva. O resultado, portanto, dependerá do momento em que a chuva ocorrer.

No Centro-Oeste, o quadro é diferente. A previsão do painel oficial do El Niño indica que as condições de chuva podem favorecer, em determinadas áreas, a colheita do milho segunda safra, do algodão e da cana-de-açúcar. O problema aparece principalmente na combinação entre temperaturas elevadas e deficiência hídrica durante o período seco. Isso pode afetar pastagens, a disponibilidade de água para a pecuária e as condições para o início da próxima safra.

Para a soja, principal produto agrícola brasileiro e um dos destaques das exportações nacionais, o risco está menos em um impacto uniforme e mais na irregularidade. A cultura precisa de água em momentos específicos do ciclo, e períodos de estiagem ou calor excessivo podem reduzir o potencial produtivo. Excesso de chuva, no entanto, pode dificultar o plantio e favorecer doenças. Por isso, a intensidade do El Niño, isoladamente, não permite afirmar que haverá uma quebra de safra nacional.

O café também merece atenção. No Sudeste, as condições previstas podem favorecer a colheita e as futuras floradas caso as chuvas retornem de maneira adequada depois do período seco. Temperaturas mais altas, no entanto, podem acelerar o ciclo das plantas e favorecer determinadas doenças.

"O El Niño precisa ser analisado regionalmente e também de acordo com cada atividade", diz José Roberto Colnaghi. "Para quem produz alimentos, cria gado ou trabalha com florestas, mudanças no regime de chuvas e nas temperaturas podem alterar o planejamento, a disponibilidade de água, as pastagens, a produtividade e até a logística. Por isso, mais do que falar em perdas ou ganhos generalizados, é preciso olhar para os diferentes cenários e se preparar para eles", destaca.

O cenário exige atenção ainda no Norte e no Nordeste. O padrão típico do El Niño aumenta o risco de seca nessas regiões. Isso pode afetar culturas dependentes de chuva, pastagens e disponibilidade de água para a pecuária. No caso do Matopiba — área que reúne Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia e que se tornou uma das principais fronteiras agrícolas do país — temperaturas elevadas combinadas com chuvas irregulares podem aumentar o risco climático justamente em uma região de forte expansão da produção de grãos.

Diante deste quadro, especialistas avaliam o impacto econômico, pois os preços de alimentos, os custos de produção, as exportações e a renda dos produtores podem ser afetados. Vale ressaltar que, como os efeitos podem ser distintos nas diferentes regiões do país, a consequência mais provável é o aumento da volatilidade, e não necessariamente uma alta generalizada dos alimentos.

Ou seja, o maior efeito do fenômeno climático sobre o agronegócio brasileiro pode acabar sendo a imprevisibilidade: uma mesma ocorrência que beneficia uma cultura pode prejudicar outra. Em um país de dimensões continentais, o desafio da safra 2026/27 será menos enfrentar um único El Niño e mais administrar vários efeitos simultâneos.

A agricultura brasileira entra, assim, em um período em que a capacidade de administrar o risco climático ganha importância. "Zoneamento agrícola, escalonamento do plantio, conservação de água e solo e acompanhamento das previsões meteorológicas podem reduzir a exposição das lavouras aos extremos", finaliza José Roberto Colnaghi.