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Moradores transformam cidade mineira com arte contemporânea
Exposição Rio Que Grita, de Joyce Ribeiro, ocupa ruas, comércios, residências e espaços públicos a partir das memórias, dos causos e da participaçã...
11/08/2026 12h07
Por: Redação Fonte: Agência Dino

Na varanda de Norma de Oliveira e Laudelino Ferreira, uma obra de arte passou a dividir espaço com a rotina da casa. Desde então, o alpendre tornou-se ponto de visitação em São Gonçalo do Sapucaí. Moradores e visitantes chegam orientados por um mapa, conhecem o trabalho instalado no local e seguem para os demais pontos do percurso.

A residência integra a exposição Rio Que Grita, da artista, educadora e historiadora Joyce Ribeiro. Em cartaz até 14 de agosto, a mostra reúne fotografias, vídeos, cerâmicas, escritos, ações urbanas e contações de histórias em diferentes locais do município. A visitação é gratuita.

Norma vive em São Gonçalo do Sapucaí há quase 39 anos e conhece Joyce desde a infância, quando a artista estudava com Clara, filha do casal. Agora, ela e Laudelino acompanham a chegada do público à varanda da família. "Achei lindo ter uma obra dela no nosso alpendre. Tem sido um prazer enorme receber os visitantes aqui. Vou sentir saudades. Nunca minha varanda foi tão visitada. Amei", conta Norma.

Um museu espalhado pela cidade

A advogada Giuliene Azevedo Luciano, natural de São Gonçalo do Sapucaí, percorreu os diferentes pontos da exposição acompanhada da filha. "Foi uma experiência muito reflexiva e diferente de tudo o que eu já havia vivenciado. É como se o museu estivesse a céu aberto, integrado às ruas da cidade. Cada parada despertava uma emoção diferente e me fez perceber que o simples, o cotidiano e o sertanejo também são belos e carregam significado", relata.

Para o curador da exposição, o arquiteto, artista visual e diretor do Museu de Arte de Ribeirão Preto, Nilton Campos, essa relação entre as obras, os espaços e os moradores é um dos elementos centrais da proposta. "O que mais me chamou a atenção na exposição é que a Joyce, ao fazer essa proposição artística, ativa a própria cidade, fazendo com que os moradores repensem suas origens e suas referências no espaço urbano", afirma.

Essa participação começa antes mesmo de o público percorrer o circuito. Norma e Laudelino, por exemplo, produziram os carimbos personalizados utilizados no mapa que orienta os visitantes pelos diferentes pontos da exposição. "Fiquei lisonjeada com a proposta, e minha filha também. Afinal, eu e o Laudelino herdamos, de alguma forma, esse trabalho de confecção de carimbos, que começou com a Clara no comando, até que ela nos entregou a tarefa", relata Norma.

Voltar para olhar de outro modo

Rio Que Grita integra o Projeto Bageira, pesquisa desenvolvida por Joyce Ribeiro ao longo de seis anos sobre os modos de relação, ação e convívio no interior. Artista, educadora e historiadora, Joyce é natural de São Gonçalo do Sapucaí e vive e trabalha entre São Paulo e Minas Gerais desde 2014. Sua pesquisa aborda o imaginário cultural caipira, os causos de tradição oral e suas relações com a historiografia.

Joyce abriu o primeiro ateliê aos 14 anos e começou a lecionar aos 17. Aos 28, mudou-se para São Paulo para estudar artes visuais. Ao retornar, passou a aproximar esse repertório das narrativas, hábitos e referências do interior. "Não me interessa separar o que é lembrança, invenção ou história, mas compreender como essas dimensões produzem juntas uma forma de conhecimento", assinala Joyce.

O que existe no fundo de um lugar

Entre os trabalhos apresentados está Profundo, ação realizada no Lago Piscina, antigo espaço de mineração transformado em parque. Para executar a obra, Joyce aprendeu a remar e instalou uma boia de mergulho na água. Moradores disponibilizaram um barco e ajudaram na gravação.

Norma acompanhou a realização do trabalho. "O registro da foto de Joyce no lago nos fez perceber a força que ela carrega dentro de si, e a realização desse evento, além de nos mostrar a história que esse lugar guarda em suas profundidades, mostrou também o ato de coragem da artista", conta.

A obra também permaneceu nas reflexões de Giuliene após a visita. "A obra Profundo me deixou pensativa por quase uma semana. Cheguei em casa contando a história da ‘piscina’ e refletindo sobre quantas narrativas, encontros e memórias aquele espaço já abrigou", relata.

Causos, memórias e personagens locais

Formada em História pela Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) e pós-graduada em História, Sociedade e Cultura pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Joyce utiliza causos, mitos, lendas, boatos e narrativas orais como formas de produzir conhecimento sobre a vida comunitária.

A exposição também retoma a memória da Bageira, árvore que existia na região central de São Gonçalo do Sapucaí e foi abatida em 1956. Mesmo ausente da paisagem, ela permaneceu nas histórias e referências dos moradores.

No projeto, Joyce cria outro destino para a árvore: depois de morrer, a Bageira teria se transformado em uma canoa para seguir pelo rio Sapucaí. "Bageira representa justamente a permanência intangível da história e da memória. Ela guarda o imaginário regional de uma comunidade sobre o seu território", explica a artista.

O rio que grita e a cidade que conta

O título da exposição se refere ao próprio nome do município. De origem tupi-guarani, Sapucaí pode ser traduzido como "rio que grita" ou "rio que canta". Na mostra, a imagem do rio está associada a deslocamento, movimento, fronteira e retorno. Depois de percorrer o circuito, Giuliene afirma ter voltado seu olhar para elementos que fazem parte da formação e da vida cotidiana de São Gonçalo do Sapucaí.

"Saí da exposição com um sentimento ainda maior de pertencimento e gratidão pela cidade onde nasci. Ela me fez refletir que a riqueza de São Gonçalo do Sapucaí está nas pessoas, em suas histórias, nos pequenos gestos e nos lugares que, à primeira vista, parecem comuns, mas carregam uma enorme carga de memória e significado", declara.

O projeto é realizado com recursos do Edital de Chamamento Público nº 01/2026, da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, do Governo Federal, Ministério da Cultura, Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais e Subsecretaria de Cultura; e do Edital de Chamamento Público nº 002/2026, da Secretaria de Cultura de São Gonçalo do Sapucaí. Conta ainda com patrocínio da EBM Contábil.

Serviço:

Exposição: Rio Que Grita
Projeto: Bageira
Artista: Joyce Ribeiro
Curador: Nilton Campos
Período para visitação: até 14 de agosto